"Senhor, não deve fazer coisa alguma o homem até que esteja certo dela, e se antes o fizeres, fa-lo-ás mal. Contar-te-ei o exemplo de um rei e de uma sua mulher."
E o rei disse:
"Pois dize agora, e ouvir-te-ei."
O privado disse:
"Ouvi dizer que um rei amava muito as mulheres, e não tinha outros maus modos senão este; e estando o rei um dia em cima de um sobrado muito alto, olhou para baixo e viu uma mulher mui formosa, afeiçoou-se muito dela e enviou quem demandasse o seu amor. E ela disse que não o poderia fazer, estando seu marido na vila; quando el rei ouviu-o, enviou seu marido a uma hoste. A mulher era muito casta e muito boa e muito entendida, e disse:
'Senhor, tu és meu senhor e eu sou tua serva, e o que tu quiseres, quero-o eu, mas ir-me-ei aos banhos, e enfeitar-me.'
E quando tornou, deu-lhe um livro de seu marido em que havia leis e juízos dos reis, de como escarmentavam as mulheres que faziam adultérios, e disse:
'Senhor, lê por este livro até que me enfeite."
E el rei abriu o livro, e teve grande vergonha e pesar do que quisera fazer, e pôs o livro em terra, e foi-se pela porta da câmara, deixando as sandálias sob o leito em que estava sentado. Nisto chegou o marido da hoste, e quando assentou-se em sua casa, suspeitou que ali dormira o rei com sua mulher e teve medo, e não ousou dizer nada por medo do rei, nem ousou entrar onde ela estava, o que durou muito tempo. E a mulher disse-o a seus parentes, que seu marido a havia deixado e que não sabia por qual razão, e eles disseram-no ao marido:
'Por que não te chegas a tua mulher?'
E ele disse:
'Eu achei as sandálias do rei em minha casa, e tenho medo, porisso não ouso chegar-me a ela.'
E eles disseram:
"Vamos ao rei e agora demos o exemplo deste feito da mulher, e não leh declaremos o feito da mulher, se ele for entendido, logo o entenderá.'
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